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Boaventura
Cardoso Bio-bibliografia: O início da sua carreira literária data de 1967,
com a publicação de vários contos e poemas nos jornais luandenses. A
sua obra resume-se em três livros de contos e dois romances, nomeadamente:
Dizanga dia Muenhu, O Fogo da Fala, A Morte do Velho
Kipacaça (conto) e O Sino do Fogo, Maio, Mês de Maria ( romance). Com
efeito, é no plano da linguagem que Boaventura Cardoso alcança resultados
que o inscrevem por direito próprio na
galeria dos autores mais
representativos da sua geração e da literatura angolana. Os registos
de discursos que atravessam as suas histórias, numa deliberada adequação
do espaço físico e social à modulação fónico-linguística das personagens,
comportam além do labor estilístico, uma estrutura de superfície textual com construções sintácticas que apontam para a existência
de sujeitos textuais responsáveis por tais acções enunciativas, onde
o autor introduz estratégias discursivas da oralidade. Aí subjazem igualmente
estilos de comportamento e uma figuração léxico-gramatical corroborada
pelos nomes hipocorísticos das personagens. Esse
aparente minimalismo textual que a elipse permite, esconde paradoxalmente
um esforço em dar mais densidade
aos contornos não-verbais e às diversas circunstâncias envolventes,
isto é, os chamados não-ditos culturais. Do ponto de vista sociológico,
a estratégias de Boaventura Cardoso, à semelhança de Luandino Vieira,
inspira rigorosamente à denúncia de clivagens e variações no funcionamento
da língua portuguesa em Angola. A diglossia imprópria é
para este autor um importante instrumento. De
tal modo que todos os textos
parecem levantar a problemática da língua literária,
relativizando-a no contexto angolano. Daí que a acção
do autor se traduza na exploração das virtualidades do sistema linguístico. Os resultados
que alcança no plano formal, deixam de ser suficientes para explicar
tais níveis de realização,exigindo-se ainda a convocação do projecto
estético subjacente. Mas semelhante constatação só é possível se se
tiver em atenção a situação de discurso em que os textos são criados. Os seus dois romances (O Signo do Fogo e Maio, Mês de Maria) apresentam um coerente fio condutor
do ponto de vista da articulação das
histórias respectivas. Se O
Signo do Fogo é um romance que se inscreve no contexto temporal
anterior à independência,ou seja, no período colonial, já em
Maio, Mês de Maria temos um
típico romance pós-colonial
ou do pós-independência,
em que se incorporam elementos
do imaginário religioso perante as crises que fracturam o tecido social
no centro do qual está a personagem chamada João Segunda. O imaginário religioso e sagrado
é vazado através das relações que João Segunda estabelece com um animal
doméstico, a cabra Tulumba, em cujo comportamento se podem interpretar
os sinais premonitórios e reprobatótios das peripécias do protagonista. |
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