INTRODUÇÃO
Uma
geração literária tem de ser vista através
da obra feita. Quando tal não ocorre, estaremos diante daqueles
que, tendo traído a sua vocação, não realizaram
a sua missão histórica. A geração de 48,
de que tratamos aqui, tem obra. Não me parecendo por isso que
tenha defraudado a sua vocação.
Para a caracterização que pretendo, torna-se desde logo
indispensável esboçar um esquema histórico-literário
no qual se deve inscrever.Vou operar com o conceito de geração
literária. Mas vejamos antes de mais qual o sentido que lhe atribuímos
no contexto da literatura angolana.
No plano teórico e crítico, o conceito de geração
literária atrai a atenção daqueles que privilegiam
a análise do fenómeno literário na perspectiva
histórica
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* Capítulo do livro MÁRIO PINTO DE ANDRADE:
um intelectual na política,coord. Inocência Mata e Laura
Padilha, Lisboa, edições colibiri, 2000,pp.53-70
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e sociológica. O filósofo espanhol Ortega
y Gasset entende que "a geração não é
um punhado de homens ilustres, nem simplesmente uma massa: é
como um novo corpo social íntegro, com a sua minoria selecta
e com a sua multidão, lançado sobre o âmbito da
existência com uma trajectória determinada" . Do ponto
de vista estritamente literário, e seguindo o conceito de Julius
Petersen, a geração comporta um conjunto de factores que
importa destacar: a data de nascimento; comunhão de orientações
pedagógicas (o processo de formação); a vivência
de problemas comuns; a existência de um guia intelectual, figura
muitas vezes carismática que lidera posicionamentos e intervenções;
a criação de uma linguagem prórpria; a desagregação
da geração precedente . A estes nós acrescentaríamos
a experiência colectiva e individual, traduzindo-se aqui na efectiva
interiorização individual dos problemas comuns e a articulação
de estratégias de grupo.
O
conceito de geração literária pressupõe
a existência de uma elite. Essa minoria selecta que se distingue
da multidão de que fala Ortega y Gasset é na verdade uma
elite . Se tivermos em atenção a história da investigação
em matéria das literaturas orais e línguas autóctones,
da imprensa e do jornalismo em Angola, verificaremos que as elites angolanas,
enquanto fenómenos sociais no contexto da situação
colonial, fizeram sempre recurso ao uso da escrita para revelar as suas
ideias sobre a realidade cultural, social e política e as circunstâncias
em que viviam. Portanto, todas as gerações literárias
angolanas, incluindo a geração de 48, representam a elite
cultural moderna, na medida em que constituem categorias de indivíduos
detentores de uma capacidade intelectual, adquirida ou não num
sistema formal de ensino, e por isso susceptível de exercer uma
certa influência presente ou futura na sociedade a que pertencem
e onde funcionam instituições de origem ocidental .
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1-Ortega
y Gasset, El Tema de Nuestro Tiempo, Madrid, Allianza Editorial,1981,p.78
2-Ver Carlos Reis, Conhecimento da Literatura - Introdução
aos Estudos Literários,
3-Coimbra,Almedina,1997,p.386
Interessa chamar a atenção para o texto de Mário
António Fernandes de Oliveira, "Factores de 'elitização'
de naturais de Luanda na segunda metade do século XIX",
Mensário Administrativo nº186 a 191, Janeiro/Junho de 1963,pp.
89-91. Por elite angolana moderna entendo aquele grupo de indivíduos
que, apropriando-se de comportamentos, instrumentos e conceitos da modernidade
ocidental, articulam estratégias discursivas a que subjazem interesses
endógenos.É a partir desta ideia que elaboro a esquematização
cronológica que começa com a 1ª elite de que fazem
parte José de Fontes Pereira e outros. Mas contrariamente aos
defensores da teoria da crioulidade cujo fundador é Mário
António, naquele conceito não se dá é relevância
à categorização biológica.
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E pelo facto
de a compreensão do conceito de geração remeter
para uma certa historicidade, justifica-se o apelo a um outro conceito,
o de história ou evolução literária. Pode
ser entendido como "o conjunto de transformações
que, ao longo dos tempos e de forma mais ou menos evidente, atinge a
linguagem literária, tanto ao nível dos seus códigos
e signos literários, como no plano das estratégias literárias"
Do ponto de vista histórico, os modos e géneros literários
que constituem a literatura angolana actual, e em geral das chamadas
literaturas modernas africanas, encerram vários contributos e
empréstimos de origem europeia ou ocidental. A poesia, a narrativa
curta, o conto, a narrativa genealógica e retórica são
géneros mais antigos que encontramos nas literaturas orais dos
povos angolanos. Da incorporação desses contributos e
empréstimos resultam apenas novos contornos, sendo a mesma a
substância dos textos literários.
Sob a perspectiva da evolução literária, um dos
processos veiculares mais evidentes de origem europeia, é a proliferação,
no espaço angolano, da literatura colonial no princípio
deste século com um passado que vem da literatura de viagens.Tal
não significa que a literatura angolana actual tenha na literatura
colonial o seu antepassado. Significa apenas que, no plano da história,
há que não perder de vista esse conjunto de textos, na
medida em que representam o discurso negativo diante do qual se pugna
pela instauração da autonomia literária.
De acordo com os resultados de pesquisas que realizei no Arquivo do
Tribunal da Comarca de Benguela, consultando processos de inventário
e de abertura de herança, quando pretendia obter informações
sobre as leituras e obras que circulavam em Benguela na época
em que José da Silva Maia Ferreira por lá passou, cheguei
a conclusões valiosas sob o ponto de vista sociológico.
As dedicatórias inscritas nas epígrafes dos poemas em
Espontaneidades da Minha Alma daquele autor, permitem inferir, na perspectiva
da intertextualidade exoliterária, a existência de um universo
de leitores, entre naturais de Angola e Portugal, cuja competência
é corroborada
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4-Ob.cit.,p.389
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pela circulação
de obras de autores europeus tais como Victor Hugo, Thiers, Alexandre
Dumas, Walter Scott, André Chénier.
Com efeito, após o solitário livro de poemas de José
da Silva Maia Ferreira publicado em 1849, os primeiros textos literários
escritos por naturais de Angola, são da autoria de membros da
geração de 1890,entre os quais pontificavam muitos portugueses.
Na primeira linha encontramos Scenas de África e O Filho Adulterino,
obras de Pedro Félix Machado publicadas na segunda metade do
século XIX. São igualmente conhecidas referências
de textos narrativos escritos por Joaquim Dias Cordeiro da Matta, nomeadamente
O Loandense da alta e baixa esfera, O Doutor Gaudêncio (romance)
embora não tenham chegado ao nosso conhecimento por não
terem sido publicadas. Mas, a prova inequívoca da capacidade
deste autor, e que chegou ao meu conhecimento, é-nos dada pelo
seu Repositório de Coisas Angolenses, uma compilação
de textos contendo informações de variável importância
para a história social e política de Angola no século
XIX.
Em virtude da ausência quase absoluta de pesquisa no domínio
da historiografia literária em Angola, é ainda hoje bastante
escasso o volume de informações sobre algumas das figuras
de vulto na literatura angolana, particularmente aquelas que marcam
a segunda metade do século XIX. Por isso, não abundam
referências respeitantes ao autor de Scenas de África.
Todavia, é sabido que Pedro Félix Machado, jornalista
portugês radicado em Angola, traz a público o seu romance
em 1880, nas páginas da Gazeta de Portugal. Doze anos depois,
em 1892 publica uma segunda edição, que é dado
à estampa em Lisboa, comportando dois volumes.
Partindo do conceito de literatura angolana, não poderemos ignorar
uma das mais brilhantes penas que exercitam o discurso em prosa no jornalismo
angolano, na primeira metade do século XIX. Trata-se de José
de Fontes Pereira (1823-1891) que nasceu em Luanda em Maio de 1823.
Aí fez os estudos primários. Dotado de grande aptidão
para o autodidactismo, como acontecerá com muitos jornalistas
das gerações seguintes, realizou estudos de direito, tendo
chegado a advogado provisionário, após obtenção
de correspondente habilitação.
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5-Cf. Manuel Ferreira e Gerald Moser, Bibliografia
das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Imprensa
Nacional/ Casa da Moeda, 1983,p.97.
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Joaquim Dias Cordeiro da Matta (1857-1894) é natural
de Icolo e Bengo onde nasceu em 25 de Dezembro de 1857 na povoação
de Cabiri.E morreu precocemente em 1894. Possuindo apenas uma formação
primária elementar, é mais um exemplo de autodidactismo
que fez igualmente história no jornalismo e na investigação
em Angola. Numa nota necrológica publicada no jornal O Arauto
Africano, diz Mamede de Sant'Ana e Palma: " Não cursou universidade,
nunca esteve em colégio nenhum da Europa, nem em escola nenhuma
de Loanda e é por isso mesmo que tem juz (
) à estima
dos seus patríocios e ao respeito dos homens ilustrados, porque
à força de muita vontade tem querido honrar o seu país
legando à posteridade o fruto da sua dedicação
(
)".
À semelhança do que se verifica em outros espaços
africanos de colonização europeia, também em Angola
emerge um romance colonial de pendor exótico e assente na mistificação
racialista. Forma-se um conjunto de textos centralmente motivados por
uma certa "missão civilizadora" atribuída a
personagens brancas, sendo as personagens de raça negra secundárias
e vítimas na urdidura da história. É a chamada
literatura ultramarina, designação que na década
de 60 é substituída pela de literatura colonial. Em Angola,
ela desenvolve-se a partir dos anos 20 deste século, com os concursos
de literatura colonial portuguesa, promovidos pela Agência Geral
do Ultramar e de estudos sobre Angola numa perspectiva etnográfica,
englobando as línguas e o folclore.
No parágrafo único do artigo 1º da Portaria nº
6.119 que em 1926 consagra a realização regular daqueles
concursos de literatura colonial, lê-se: "será sempre
preferida a literatura na forma de romance, novela, narrativa, relato
de aventuras, etc. que melhor faça a propaganda do império
português de além-mar, e melhor contribua para despertar,
sobretudo na mocidade, o gosto pelas causas coloniais."
Os primeiros prémios de literatura colonial foram atribuídos
a dois autores portugueses, nomeadamente, Gastão de Sousa Dias
com África Portentosa e Brito Camacho com Pretos e Brancos. Um
outro autor de assídua participação nos referidos
concursos e cujas obras e pertença podem dar lugar a fecundos
debates sobre a estética da narrativa angolana, é Castro
Soromenho. Em 1939 concorre com o livro de contos Nhari. A opinião
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6-Ver Mário António, Luanda - Ilha Crioula,
Lisboa, Agência Geral do Ultramar,1968,pp.73-74
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que o júri consagra em acta sustenta que a obra se
ocupa do "drama de gente negra (
) a paisagem e a psicologia
dos seus protagonistas [é] interessante, cheia de colorido e
de vida e, por vezes, a tese que encerram envolve moral e ensinamentos
construtivos, pela análise rigorosa e conscienciosa e bem deduzida
da psicologia dos indígenas e pelo rico colorido que sabe emprestar
ao decorrer da acção." Em 1941, Castro Soromenho
apresenta Noite de Angústia, a melhor obra do XIV concurso segundo
o júri.
O progressivo desenvolvimento da literatura e o surgimento de autores
de discursos em prosa e poesia , deve-se ao florescimento de jornais
nos fins do século XIX e à institucionalização
do ensino liceal, no princípio do século XX, em cujo quadro
se formam leitores e potenciais escritores. Neste contexto, além
das obras de Pedro Félix Machado e Joaquim Dias Cordeiro da Matta,
publicam-se nos anos 10 e 20 importantes narrativas, algumas das quais
de cunho autobiográfico como História de Uma Traição
de Pedro da Paixão Franco.
O período que se segue ao fim do século XIX e à
proclamação da República em Portugal, marcado pelo
jornalismo apologético da causa africana, é esmagador,
caracterizando-se pela atitude das autoridades coloniais que tomam as
mais diversas providências para cercear as liberdades e reprimir
a actividade jornalística dos naturais que defendiam na imprensa,
desde o século passado, a autonomia e a independência de
Angola.
Os anos 30 representam a década de inibições do
exercício das liberdades já em si precárias. É
um período de transição onde avultam nomes como
António de Assis Júnior (1887-1960), sendo ele próprio
o lídimo representante da 4ª elite. Até aí,
apenas um romance, O Segredo da Morta, deste mesmo autor, dava sinais
da tendencial autonomia e de uma verdadeira ficção literária
moderna, devendo ser considerado o romance fundador em Angola. A sua
publicação em livro foi precedida de folhetins no jornal
A Vanguarda. Só em 1934 viria a ser editado com a chancela de
A Lusitânia. Publicou ainda Relato dos Acontecimentos de Ndala
Tando e Lucala, uma narrativa e ao mesmo tempo um testemunho sobre actividades
de reivindicação reprimidas cujos actores constituíam
um grupo da elite local de que ele próprio fazia parte. António
de Assis Júnior é natural de Luanda onde nasceu em 13
de Março de 1887 e faleceu em 1960, em Lisboa.
Mas é com a 4ª elite, cuja geração é
constituída por indivíduos nascidos em fins do século
XIX e que sobreviveram até às décadas de 50 e 60
do século XX, que se esboçam novas estratégias
no plano da escrita ensaística e do jornalismo. Além disso,
comportam-se verdadeiramente como elite, pois com o desenvolvimento
do associativismo nativista que ganha adesão em outros pontos
de Angola e o exercício de um jornalismo agressivo (O Angolense
e A Verdade), assumem o papel de porta-vozes das populações
chamadas indígenas nas sua revindicações contra
as exacções fiscais e expropriação de terrenos.
Quando em 1922, o Alto Comissário da República portuguesa
em Angola manda, através do célebre Decreto nº99,
extinguir a Liga Angolana e suspender o jornal O Angolense, tal culminava
a onda de prisões, deportações e apreensões
que iniciara em 1917.
Em fins da década de 30, emerge o nome de Óscar Ribas,
um outro narrador que viria a confirmar os seus méritos com a
publicação do romance Uanga em 1950. Segundo o ensaísta
Mário António, Óscar Ribas "surge como um
elo necessário entre essa tradição em perigo e
os anseios de afirmação literária das gerações
mais novas da sua terra." Mas os seus créditos firmam-se
com Ecos da Minha Terra, publicado em 1952.
Ao entrarmos para a década de 40, vemos florescer um sistema
educativo à medida das necessidades coloniais e um jornalismo
que, respeitando os limites da lei, proporciona oportunidades a uma
geração que se afirma.
Os ideais republicanos de que se faziam arautos as três primeiras
elites das gerações anteriores, apesar da repressão
várias vezes tentada, são interiorizadas pela 5ª
elite de angolanos que saem dos liceus de Luanda e do Lubango. Estes
estabelecimentos de ensino são criados em 1919 e 1929, respectivamente.
Em meados da década de 20, com o culminar do terrível
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7-Por Portaria nº51 de 1919 é criado o
liceu central de Luanda. No mesmo ano é aprovada a sua organização
e regulamenta-se o ensino secundário. O liceu da Huíla
é criado por um Diploma Legislativo de 1929, em substituição
da escola primária superior.
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período de repressão exercido sobre
a imprensa e o associativismo autóctones, durante o regime de
Norton de Matos, destaca-se uma geração constituída
por uma plêiade de escritores que emergem em três cidades
angolanas, nomeadamente Luanda, Benguela e Huambo. Integram-na entre
outros Agostinho Neto, Aires Almeida Santos, Alexandre Dáskalos,
António Jacinto, Domingos Van-Dúnem, Viriato da Cruz.
Com esta geração a grande narrativa deixa de ser cultivada,
para dar lugar à poesia. É uma geração de
poetas que se notabiliza e em que avultam os grandes nomes da poética
fundadora angolana.
Têm uma intervenção reduzida ao mínimo no
domínio da ficção. Apenas Domingos Van-Dúnem
e Agostinho Neto publicam respectivamente A Praga no Diário de
Luanda em 1947 e o conto Náusea, em 1952. Décadas depois,
já em 1979 António Jacinto, traz à lume o conto
Vovô Bartolomeu, apesar das anteriores experiências em prosa
publicadas nos jornais.
Portanto, a geração de 40 (geração de 20
para Mário Pinto de Andrade) é a primeira de estudantes
angolanos que sai dos liceus de que ressaltam nomes de peso na literatura
angolana. É aquela que denomino como a 5ª elite nacionalista.
À 1ª elite pertencem figuras como José de Fontes
Pereira (1823-1891), constituída por autodidactas e cultores
do jornalismo apologético e polémico e publicistas. A
2ª elite é aquela a que pertence J.D. Cordeiro da Matta
(1857-1894). A 3ª elite é aquela que dá à
estampa a "Voz de Angola Clamando no Deserto" de que fazem
parte, entre outros, Pedro da Paixão Franco (1869-1911).
Quando, em 1919, é criado o liceu central de Luanda, o primeiro
em Angola, a imprensa vinha conhecendo um progressivo aumento de importância
e prestígio na vida pública dos principais centros urbanos.
Concomitantemente, as autoridades coloniais foram sentindo a necessidade
de tomar medidas administrativas que, a partir de 1912, reflectiam algumas
inquietações sobre o modo como manuseava esse portentoso
instrumento.
Por Decreto-Lei de 27 de Setembro de 1912, entendia-se de "reconhecida
necessidade, adoptar para as colónias disposições
repressivas dos abusos de liberdade de imprensa, cometidos por meio
de publicações
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8-Ver Entrevista, p.44
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atentatórias do prestígio e do respeito às
instituições republicanas e à moral pública".
Em 1922, é publicado o Decreto-Lei nº99 .
As publicações liceais são reguladas em 1936 pelo
Decreto nº22347. O jornal O Estudante, órgão do Liceu
Salvador Correia, obedece já aos ditames desse acto normativo.
Aos integrantes da geração de 40, cuja formação
liceal ocorre na década de 30, são inculcados valores
literários e humanísticos assentes na tradição
portuguesa, na medida em que os programas escolares e a estrutura curricular
dos liceus da época - como de resto todos os programas do ensino
colonial até 1974 - obedecem a dispositivos legais obrigatórios.
Por exemplo, Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz
que terão frequentado o Liceu de Luanda depois de 1930, cumprem
um programa das disciplinas do ensino liceal que é aprovado pelo
Decreto-Lei 27085, vigorando a partir do ano lectivo de 1936/37. Com
este instrumento jurídico estamos perante as balizas que conformam
o cânone colonial ( o conjunto de obras literárias recomendadas
no sistema de ensino oficial, durante o período colonial). Trata-se
de um cânone que se funda em critérios legíveis
no quadro de uma cultura colonial. No que diz respeito ao ensino das
disciplinas de literatura e língua portuguesa e história
e geografia de Portugal, há uma uniformidade em todo o chamado
Império Colonial Português. As orientações
pedagógicas não se adequam ao universo cultural dos povos
colonizados.
No terceiro ano do liceu, recomenda-se que os textos de apoio ao ensino
da língua acentuem o predomínio dos assuntos portugueses.
O programa da do 7º ano e a sua pedagogia sustenta "a ilustração
do espírito e também a educação cívica
dos alunos, por meio da exposição metódica da história
da literatura portuguesa, à luz de numerosos documentos que permitam
acompanhar a evolução dos sentimentos, das ideias e da
arte, bem como da linguagem, numa síntese da vida mental da Nação"
portuguesa
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9-O Decreto nº99 do Alto Comissariado da República
Portuguesa em Angola extingue a "associação denominada
Liga Angolana" e suspende a "publicação do jornal
O Angolense", mandando igualmente dar buscas aos escritórios
da Liga Angolana e na redacção de O Angolense.
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Será contra esse cânone colonial, institucionalizado
com a introdução do ensino liceal em Angola desde 1919,
que as gerações de 30 e 40 se propõem fundar uma
verdadeira e autónoma literatura angolana.
Como a seguir veremos, os textos de Agostinho Neto, que fora estudante
do liceu de Luanda, inscrevem-se nas manifestações de
protesto contra a imposição dos valores portugueses.Esta
imposição, pela sua natureza perniciosa, está na
origem da alienação que não escapa à constatação
deste autor:
" Os nativos são educados como se estivessem nascido e residissem
na Europa.Antes de atingirem a idade em que são capazes de pensar
sem esteio, não conhecem Angola. Olham a sua terra de fora para
dentro e não ao invés, como seria óbvio.Estudam
na escola, minuciosamente a História e geografia de Portugal,
enquanto que as da Colónia apenas folheiam em sinopses ou estudam
muito levemente. Ingenuamente, suspiram pelas regiões temperadas
do norte, por onde lhes arda o coração. Não compreendem
esta gente que aqui habita, os seus costumes e idiossincrasia. Não
têm tradições. Não têm orgulho da sua
terra porque nela nada encontram de que se orgulhar; porque não
a conhecem. Não têm literatura, têm a alheia. Não
têm arte sua. Não têm espírito".
"Não adoptam uma cultura; adaptam-se a uma cultura."
"Os indivíduos assim formados têm a cabeça
sobre vértebras estranhas, de modo que as ideias, as expirações
do espírito são estranhas à terra. Daí o
olhar-se esta, a sua gente e hábitos, o mundo que os rodeia,
como estranhos a si - de fora."
A administração colonial das décadas de 30 e 40
obedece a princípios doutrinários da política indígena
consagrada no Acto Colonial de 1930, cujo objectivo é conseguir
a integração das populações nativas na nação
portuguesa. Os meios através dos quais se pretende actuar sobre
os "indígenas", as populações nativas,
são principalmente a difusão da língua
____________________________________
10-O retrato que Agostinho Neto faz dos jovens nativos
segundo o qual " O desamor à causa é principalmente
notado em aqueles, com uma certa cultura ou uma boa dose de inteligência
geralmente reconhecida", é confirmado por Domingos Van-Dúnem,
quando diz : " Os novos, que recebiam preparação
nos liceus e esperavam constituir a elite angolana, recusavam qualquer
colaboração ao jornal [ O Farolim]. Ver Michel Laban,ob.cit.pp.200-201
___________________________________
portuguesa, a educação e o ensino, a cristianização.
Tal filosofia constitui a ossatura de dois instrumentos: o Estatuto
Político, Civil e Criminal dos Indígenas e o Código
de Trabalho dos Indígenas.Todos eles arrancam do pressuposto
da incapacidade das populações autóctones de Angola,
partindo de fundamentos de uma categorização racial. Donde
decorre a legitimidade daquilo a que se chamou assimilação
uniformizadora.
A ressaca da segunda guerra mundial, os ventos do pan-africanismo, na
sua matriz norte-americana, os ecos do nacionalismo nas antigas colónias
britânicas e francesas, e a expansão dos partidos comunistas
europeus e latino-americanos, são factores de renovação
de estratégias da 5ª elite, a geração de 48.
Verifica-se a recorrência de um certo tipo de interrogações,
que vai sendo tematizado nos textos publicados na imprensa local.
Segundo testemunhos de escritores da geração literária
de 48, é inegável a identidade partilhada e sentida por
aqueles que a integravam. O poeta António Jacinto teria dito:
"Por exemplo, com Agostinho Neto, com Viriato da Cruz, nós
sentíamos uma grande proximidade".
Portanto, o fim da II Guerra Mundial coincide com uma diversidade de
acontecimentos que ocorrem em Angola. Mas entre os factos dignos de
relevo devem ser focados a evolução da política
colonial, os progressos da economia colonial e a formação
de uma elite de autóctones que ia demonstrando já um elevado
nível de consciência reivindicativa e autonomista. O que
daria origem àquilo a que se tem designado por resistência
dos intelectuais.
O pós-guerra traz para os futuros intelectuais angolanos indicadores
de alguma mudança. A este propósito Agostinho Neto, num
artigo de jornal, escrevia em 1945: "Já acabou a guerra;
pelo menos a militar. Agora, os países que nela estiverem envolvidos;
que foram danificados por ela; que sacrificaram seus filhos e seus haveres;
exaustos, procuram reedificar, reconstruir, transformar as indústrias
bélicas em indústrias de paz; fazer esquecer os horrores
da luta; desejam que o mundo a levantar sobre as ruínas deixadas
pelos explosivos, sejam menor que o anterior."
_____________________________________
11-J.M. da Silva Cunha, O Sistema Português de Política
Indígena (Princípios gerais),Lisboa, Agência Geral
do Ultramar,1952
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É no quadro desse ambiente de reconstrução
da Europa que os intelectuais angolanos nascidos entre 1922 (Agostinho
Neto 1922-1979), Viriato da Cruz (1928-1973) e 1934 (Mário António,
1934-1989), começam a produzir a sua obra literária.
Para Mário Pinto de Andrade eles constituiriam aquilo a que chamou
a Geração dos anos 20 . Simultaneamente, nesse mesmo período,
resgista-se a concentração de uma grande vaga de estudantes
oriundos das então colónias portuguesas. Pode dizer-se
que para o caso de Angola, a década de 50 estende o foco da explosão
intelectual, que vinha ocorrendo em Luanda, Benguela, Huambo e Lubango,
para as cidades de Lisboa e Coimbra, os dois pólos da actividade
académica universitária em Portugal.
Na extensa entrevista concedida por Mário Pinto de Andrade (
21 de Agosto 1928 - 26 de Agosto 1990) antes da sua morte, a década
de 50 representa na verdade o ponto culminante de uma actividade intelectual
nunca vista em gerações anteriores. Prova disso é
a criação do Centro de Estudos Africanos em Lisboa, nos
anos 50.
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