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conheça a riqueza da literatura angolana
AGOSTINHO NETO E A GERAÇÃO LITERÁRIA DE 40*


Quando voltei
as casuarinas tinham desaparecido da cidade
(…………)
Também tu tinhas desaparecido
e contigo
os Intelectuais
a Liga
o Farolim
as reuniões das Ingombotas
a consciência dos que traíram sem amor

Agostinho Neto

INTRODUÇÃO

Uma geração literária tem de ser vista através da obra feita. Quando tal não ocorre, estaremos diante daqueles que, tendo traído a sua vocação, não realizaram a sua missão histórica. A geração de 48, de que tratamos aqui, tem obra. Não me parecendo por isso que tenha defraudado a sua vocação.
Para a caracterização que pretendo, torna-se desde logo indispensável esboçar um esquema histórico-literário no qual se deve inscrever.Vou operar com o conceito de geração literária. Mas vejamos antes de mais qual o sentido que lhe atribuímos no contexto da literatura angolana.
No plano teórico e crítico, o conceito de geração literária atrai a atenção daqueles que privilegiam a análise do fenómeno literário na perspectiva histórica
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* Capítulo do livro MÁRIO PINTO DE ANDRADE: um intelectual na política,coord. Inocência Mata e Laura Padilha, Lisboa, edições colibiri, 2000,pp.53-70
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e sociológica. O filósofo espanhol Ortega y Gasset entende que "a geração não é um punhado de homens ilustres, nem simplesmente uma massa: é como um novo corpo social íntegro, com a sua minoria selecta e com a sua multidão, lançado sobre o âmbito da existência com uma trajectória determinada" . Do ponto de vista estritamente literário, e seguindo o conceito de Julius Petersen, a geração comporta um conjunto de factores que importa destacar: a data de nascimento; comunhão de orientações pedagógicas (o processo de formação); a vivência de problemas comuns; a existência de um guia intelectual, figura muitas vezes carismática que lidera posicionamentos e intervenções; a criação de uma linguagem prórpria; a desagregação da geração precedente . A estes nós acrescentaríamos a experiência colectiva e individual, traduzindo-se aqui na efectiva interiorização individual dos problemas comuns e a articulação de estratégias de grupo.

O conceito de geração literária pressupõe a existência de uma elite. Essa minoria selecta que se distingue da multidão de que fala Ortega y Gasset é na verdade uma elite . Se tivermos em atenção a história da investigação em matéria das literaturas orais e línguas autóctones, da imprensa e do jornalismo em Angola, verificaremos que as elites angolanas, enquanto fenómenos sociais no contexto da situação colonial, fizeram sempre recurso ao uso da escrita para revelar as suas ideias sobre a realidade cultural, social e política e as circunstâncias em que viviam. Portanto, todas as gerações literárias angolanas, incluindo a geração de 48, representam a elite cultural moderna, na medida em que constituem categorias de indivíduos detentores de uma capacidade intelectual, adquirida ou não num sistema formal de ensino, e por isso susceptível de exercer uma certa influência presente ou futura na sociedade a que pertencem e onde funcionam instituições de origem ocidental .
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1-Ortega y Gasset, El Tema de Nuestro Tiempo, Madrid, Allianza Editorial,1981,p.78
2-Ver Carlos Reis, Conhecimento da Literatura - Introdução aos Estudos Literários,
3-Coimbra,Almedina,1997,p.386
Interessa chamar a atenção para o texto de Mário António Fernandes de Oliveira, "Factores de 'elitização' de naturais de Luanda na segunda metade do século XIX", Mensário Administrativo nº186 a 191, Janeiro/Junho de 1963,pp. 89-91. Por elite angolana moderna entendo aquele grupo de indivíduos que, apropriando-se de comportamentos, instrumentos e conceitos da modernidade ocidental, articulam estratégias discursivas a que subjazem interesses endógenos.É a partir desta ideia que elaboro a esquematização cronológica que começa com a 1ª elite de que fazem parte José de Fontes Pereira e outros. Mas contrariamente aos defensores da teoria da crioulidade cujo fundador é Mário António, naquele conceito não se dá é relevância à categorização biológica.

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E pelo facto de a compreensão do conceito de geração remeter para uma certa historicidade, justifica-se o apelo a um outro conceito, o de história ou evolução literária. Pode ser entendido como "o conjunto de transformações que, ao longo dos tempos e de forma mais ou menos evidente, atinge a linguagem literária, tanto ao nível dos seus códigos e signos literários, como no plano das estratégias literárias"

Do ponto de vista histórico, os modos e géneros literários que constituem a literatura angolana actual, e em geral das chamadas literaturas modernas africanas, encerram vários contributos e empréstimos de origem europeia ou ocidental. A poesia, a narrativa curta, o conto, a narrativa genealógica e retórica são géneros mais antigos que encontramos nas literaturas orais dos povos angolanos. Da incorporação desses contributos e empréstimos resultam apenas novos contornos, sendo a mesma a substância dos textos literários.
Sob a perspectiva da evolução literária, um dos processos veiculares mais evidentes de origem europeia, é a proliferação, no espaço angolano, da literatura colonial no princípio deste século com um passado que vem da literatura de viagens.Tal não significa que a literatura angolana actual tenha na literatura colonial o seu antepassado. Significa apenas que, no plano da história, há que não perder de vista esse conjunto de textos, na medida em que representam o discurso negativo diante do qual se pugna pela instauração da autonomia literária.
De acordo com os resultados de pesquisas que realizei no Arquivo do Tribunal da Comarca de Benguela, consultando processos de inventário e de abertura de herança, quando pretendia obter informações sobre as leituras e obras que circulavam em Benguela na época em que José da Silva Maia Ferreira por lá passou, cheguei a conclusões valiosas sob o ponto de vista sociológico. As dedicatórias inscritas nas epígrafes dos poemas em Espontaneidades da Minha Alma daquele autor, permitem inferir, na perspectiva da intertextualidade exoliterária, a existência de um universo de leitores, entre naturais de Angola e Portugal, cuja competência é corroborada
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4-Ob.cit.,p.389

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pela circulação de obras de autores europeus tais como Victor Hugo, Thiers, Alexandre Dumas, Walter Scott, André Chénier.
Com efeito, após o solitário livro de poemas de José da Silva Maia Ferreira publicado em 1849, os primeiros textos literários escritos por naturais de Angola, são da autoria de membros da geração de 1890,entre os quais pontificavam muitos portugueses. Na primeira linha encontramos Scenas de África e O Filho Adulterino, obras de Pedro Félix Machado publicadas na segunda metade do século XIX. São igualmente conhecidas referências de textos narrativos escritos por Joaquim Dias Cordeiro da Matta, nomeadamente O Loandense da alta e baixa esfera, O Doutor Gaudêncio (romance) embora não tenham chegado ao nosso conhecimento por não terem sido publicadas. Mas, a prova inequívoca da capacidade deste autor, e que chegou ao meu conhecimento, é-nos dada pelo seu Repositório de Coisas Angolenses, uma compilação de textos contendo informações de variável importância para a história social e política de Angola no século XIX.
Em virtude da ausência quase absoluta de pesquisa no domínio da historiografia literária em Angola, é ainda hoje bastante escasso o volume de informações sobre algumas das figuras de vulto na literatura angolana, particularmente aquelas que marcam a segunda metade do século XIX. Por isso, não abundam referências respeitantes ao autor de Scenas de África. Todavia, é sabido que Pedro Félix Machado, jornalista portugês radicado em Angola, traz a público o seu romance em 1880, nas páginas da Gazeta de Portugal. Doze anos depois, em 1892 publica uma segunda edição, que é dado à estampa em Lisboa, comportando dois volumes.
Partindo do conceito de literatura angolana, não poderemos ignorar uma das mais brilhantes penas que exercitam o discurso em prosa no jornalismo angolano, na primeira metade do século XIX. Trata-se de José de Fontes Pereira (1823-1891) que nasceu em Luanda em Maio de 1823. Aí fez os estudos primários. Dotado de grande aptidão para o autodidactismo, como acontecerá com muitos jornalistas das gerações seguintes, realizou estudos de direito, tendo chegado a advogado provisionário, após obtenção de correspondente habilitação.
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5-Cf. Manuel Ferreira e Gerald Moser, Bibliografia das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1983,p.97.
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Joaquim Dias Cordeiro da Matta (1857-1894) é natural de Icolo e Bengo onde nasceu em 25 de Dezembro de 1857 na povoação de Cabiri.E morreu precocemente em 1894. Possuindo apenas uma formação primária elementar, é mais um exemplo de autodidactismo que fez igualmente história no jornalismo e na investigação em Angola. Numa nota necrológica publicada no jornal O Arauto Africano, diz Mamede de Sant'Ana e Palma: " Não cursou universidade, nunca esteve em colégio nenhum da Europa, nem em escola nenhuma de Loanda e é por isso mesmo que tem juz (…) à estima dos seus patríocios e ao respeito dos homens ilustrados, porque à força de muita vontade tem querido honrar o seu país legando à posteridade o fruto da sua dedicação (…)".
À semelhança do que se verifica em outros espaços africanos de colonização europeia, também em Angola emerge um romance colonial de pendor exótico e assente na mistificação racialista. Forma-se um conjunto de textos centralmente motivados por uma certa "missão civilizadora" atribuída a personagens brancas, sendo as personagens de raça negra secundárias e vítimas na urdidura da história. É a chamada literatura ultramarina, designação que na década de 60 é substituída pela de literatura colonial. Em Angola, ela desenvolve-se a partir dos anos 20 deste século, com os concursos de literatura colonial portuguesa, promovidos pela Agência Geral do Ultramar e de estudos sobre Angola numa perspectiva etnográfica, englobando as línguas e o folclore.
No parágrafo único do artigo 1º da Portaria nº 6.119 que em 1926 consagra a realização regular daqueles concursos de literatura colonial, lê-se: "será sempre preferida a literatura na forma de romance, novela, narrativa, relato de aventuras, etc. que melhor faça a propaganda do império português de além-mar, e melhor contribua para despertar, sobretudo na mocidade, o gosto pelas causas coloniais."
Os primeiros prémios de literatura colonial foram atribuídos a dois autores portugueses, nomeadamente, Gastão de Sousa Dias com África Portentosa e Brito Camacho com Pretos e Brancos. Um outro autor de assídua participação nos referidos concursos e cujas obras e pertença podem dar lugar a fecundos debates sobre a estética da narrativa angolana, é Castro Soromenho. Em 1939 concorre com o livro de contos Nhari. A opinião
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6-Ver Mário António, Luanda - Ilha Crioula, Lisboa, Agência Geral do Ultramar,1968,pp.73-74
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que o júri consagra em acta sustenta que a obra se ocupa do "drama de gente negra (…) a paisagem e a psicologia dos seus protagonistas [é] interessante, cheia de colorido e de vida e, por vezes, a tese que encerram envolve moral e ensinamentos construtivos, pela análise rigorosa e conscienciosa e bem deduzida da psicologia dos indígenas e pelo rico colorido que sabe emprestar ao decorrer da acção." Em 1941, Castro Soromenho apresenta Noite de Angústia, a melhor obra do XIV concurso segundo o júri.
O progressivo desenvolvimento da literatura e o surgimento de autores de discursos em prosa e poesia , deve-se ao florescimento de jornais nos fins do século XIX e à institucionalização do ensino liceal, no princípio do século XX, em cujo quadro se formam leitores e potenciais escritores. Neste contexto, além das obras de Pedro Félix Machado e Joaquim Dias Cordeiro da Matta, publicam-se nos anos 10 e 20 importantes narrativas, algumas das quais de cunho autobiográfico como História de Uma Traição de Pedro da Paixão Franco.
O período que se segue ao fim do século XIX e à proclamação da República em Portugal, marcado pelo jornalismo apologético da causa africana, é esmagador, caracterizando-se pela atitude das autoridades coloniais que tomam as mais diversas providências para cercear as liberdades e reprimir a actividade jornalística dos naturais que defendiam na imprensa, desde o século passado, a autonomia e a independência de Angola.

Os anos 30 representam a década de inibições do exercício das liberdades já em si precárias. É um período de transição onde avultam nomes como António de Assis Júnior (1887-1960), sendo ele próprio o lídimo representante da 4ª elite. Até aí, apenas um romance, O Segredo da Morta, deste mesmo autor, dava sinais da tendencial autonomia e de uma verdadeira ficção literária moderna, devendo ser considerado o romance fundador em Angola. A sua publicação em livro foi precedida de folhetins no jornal A Vanguarda. Só em 1934 viria a ser editado com a chancela de A Lusitânia. Publicou ainda Relato dos Acontecimentos de Ndala Tando e Lucala, uma narrativa e ao mesmo tempo um testemunho sobre actividades de reivindicação reprimidas cujos actores constituíam um grupo da elite local de que ele próprio fazia parte. António de Assis Júnior é natural de Luanda onde nasceu em 13 de Março de 1887 e faleceu em 1960, em Lisboa.
Mas é com a 4ª elite, cuja geração é constituída por indivíduos nascidos em fins do século XIX e que sobreviveram até às décadas de 50 e 60 do século XX, que se esboçam novas estratégias no plano da escrita ensaística e do jornalismo. Além disso, comportam-se verdadeiramente como elite, pois com o desenvolvimento do associativismo nativista que ganha adesão em outros pontos de Angola e o exercício de um jornalismo agressivo (O Angolense e A Verdade), assumem o papel de porta-vozes das populações chamadas indígenas nas sua revindicações contra as exacções fiscais e expropriação de terrenos.
Quando em 1922, o Alto Comissário da República portuguesa em Angola manda, através do célebre Decreto nº99, extinguir a Liga Angolana e suspender o jornal O Angolense, tal culminava a onda de prisões, deportações e apreensões que iniciara em 1917.

Em fins da década de 30, emerge o nome de Óscar Ribas, um outro narrador que viria a confirmar os seus méritos com a publicação do romance Uanga em 1950. Segundo o ensaísta Mário António, Óscar Ribas "surge como um elo necessário entre essa tradição em perigo e os anseios de afirmação literária das gerações mais novas da sua terra." Mas os seus créditos firmam-se com Ecos da Minha Terra, publicado em 1952.
Ao entrarmos para a década de 40, vemos florescer um sistema educativo à medida das necessidades coloniais e um jornalismo que, respeitando os limites da lei, proporciona oportunidades a uma geração que se afirma.
Os ideais republicanos de que se faziam arautos as três primeiras elites das gerações anteriores, apesar da repressão várias vezes tentada, são interiorizadas pela 5ª elite de angolanos que saem dos liceus de Luanda e do Lubango. Estes estabelecimentos de ensino são criados em 1919 e 1929, respectivamente. Em meados da década de 20, com o culminar do terrível
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7-Por Portaria nº51 de 1919 é criado o liceu central de Luanda. No mesmo ano é aprovada a sua organização e regulamenta-se o ensino secundário. O liceu da Huíla é criado por um Diploma Legislativo de 1929, em substituição da escola primária superior.
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período de repressão exercido sobre a imprensa e o associativismo autóctones, durante o regime de Norton de Matos, destaca-se uma geração constituída por uma plêiade de escritores que emergem em três cidades angolanas, nomeadamente Luanda, Benguela e Huambo. Integram-na entre outros Agostinho Neto, Aires Almeida Santos, Alexandre Dáskalos, António Jacinto, Domingos Van-Dúnem, Viriato da Cruz. Com esta geração a grande narrativa deixa de ser cultivada, para dar lugar à poesia. É uma geração de poetas que se notabiliza e em que avultam os grandes nomes da poética fundadora angolana.
Têm uma intervenção reduzida ao mínimo no domínio da ficção. Apenas Domingos Van-Dúnem e Agostinho Neto publicam respectivamente A Praga no Diário de Luanda em 1947 e o conto Náusea, em 1952. Décadas depois, já em 1979 António Jacinto, traz à lume o conto Vovô Bartolomeu, apesar das anteriores experiências em prosa publicadas nos jornais.
Portanto, a geração de 40 (geração de 20 para Mário Pinto de Andrade) é a primeira de estudantes angolanos que sai dos liceus de que ressaltam nomes de peso na literatura angolana. É aquela que denomino como a 5ª elite nacionalista.
À 1ª elite pertencem figuras como José de Fontes Pereira (1823-1891), constituída por autodidactas e cultores do jornalismo apologético e polémico e publicistas. A 2ª elite é aquela a que pertence J.D. Cordeiro da Matta (1857-1894). A 3ª elite é aquela que dá à estampa a "Voz de Angola Clamando no Deserto" de que fazem parte, entre outros, Pedro da Paixão Franco (1869-1911).
Quando, em 1919, é criado o liceu central de Luanda, o primeiro em Angola, a imprensa vinha conhecendo um progressivo aumento de importância e prestígio na vida pública dos principais centros urbanos. Concomitantemente, as autoridades coloniais foram sentindo a necessidade de tomar medidas administrativas que, a partir de 1912, reflectiam algumas inquietações sobre o modo como manuseava esse portentoso instrumento.
Por Decreto-Lei de 27 de Setembro de 1912, entendia-se de "reconhecida necessidade, adoptar para as colónias disposições repressivas dos abusos de liberdade de imprensa, cometidos por meio de publicações
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8-Ver Entrevista, p.44
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atentatórias do prestígio e do respeito às instituições republicanas e à moral pública". Em 1922, é publicado o Decreto-Lei nº99 .

As publicações liceais são reguladas em 1936 pelo Decreto nº22347. O jornal O Estudante, órgão do Liceu Salvador Correia, obedece já aos ditames desse acto normativo.
Aos integrantes da geração de 40, cuja formação liceal ocorre na década de 30, são inculcados valores literários e humanísticos assentes na tradição portuguesa, na medida em que os programas escolares e a estrutura curricular dos liceus da época - como de resto todos os programas do ensino colonial até 1974 - obedecem a dispositivos legais obrigatórios. Por exemplo, Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz que terão frequentado o Liceu de Luanda depois de 1930, cumprem um programa das disciplinas do ensino liceal que é aprovado pelo Decreto-Lei 27085, vigorando a partir do ano lectivo de 1936/37. Com este instrumento jurídico estamos perante as balizas que conformam o cânone colonial ( o conjunto de obras literárias recomendadas no sistema de ensino oficial, durante o período colonial). Trata-se de um cânone que se funda em critérios legíveis no quadro de uma cultura colonial. No que diz respeito ao ensino das disciplinas de literatura e língua portuguesa e história e geografia de Portugal, há uma uniformidade em todo o chamado Império Colonial Português. As orientações pedagógicas não se adequam ao universo cultural dos povos colonizados.
No terceiro ano do liceu, recomenda-se que os textos de apoio ao ensino da língua acentuem o predomínio dos assuntos portugueses. O programa da do 7º ano e a sua pedagogia sustenta "a ilustração do espírito e também a educação cívica dos alunos, por meio da exposição metódica da história da literatura portuguesa, à luz de numerosos documentos que permitam acompanhar a evolução dos sentimentos, das ideias e da arte, bem como da linguagem, numa síntese da vida mental da Nação" portuguesa
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9-O Decreto nº99 do Alto Comissariado da República Portuguesa em Angola extingue a "associação denominada Liga Angolana" e suspende a "publicação do jornal O Angolense", mandando igualmente dar buscas aos escritórios da Liga Angolana e na redacção de O Angolense.
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Será contra esse cânone colonial, institucionalizado com a introdução do ensino liceal em Angola desde 1919, que as gerações de 30 e 40 se propõem fundar uma verdadeira e autónoma literatura angolana.
Como a seguir veremos, os textos de Agostinho Neto, que fora estudante do liceu de Luanda, inscrevem-se nas manifestações de protesto contra a imposição dos valores portugueses.Esta imposição, pela sua natureza perniciosa, está na origem da alienação que não escapa à constatação deste autor:
" Os nativos são educados como se estivessem nascido e residissem na Europa.Antes de atingirem a idade em que são capazes de pensar sem esteio, não conhecem Angola. Olham a sua terra de fora para dentro e não ao invés, como seria óbvio.Estudam na escola, minuciosamente a História e geografia de Portugal, enquanto que as da Colónia apenas folheiam em sinopses ou estudam muito levemente. Ingenuamente, suspiram pelas regiões temperadas do norte, por onde lhes arda o coração. Não compreendem esta gente que aqui habita, os seus costumes e idiossincrasia. Não têm tradições. Não têm orgulho da sua terra porque nela nada encontram de que se orgulhar; porque não a conhecem. Não têm literatura, têm a alheia. Não têm arte sua. Não têm espírito".
"Não adoptam uma cultura; adaptam-se a uma cultura."
"Os indivíduos assim formados têm a cabeça sobre vértebras estranhas, de modo que as ideias, as expirações do espírito são estranhas à terra. Daí o olhar-se esta, a sua gente e hábitos, o mundo que os rodeia, como estranhos a si - de fora."
A administração colonial das décadas de 30 e 40 obedece a princípios doutrinários da política indígena consagrada no Acto Colonial de 1930, cujo objectivo é conseguir a integração das populações nativas na nação portuguesa. Os meios através dos quais se pretende actuar sobre os "indígenas", as populações nativas, são principalmente a difusão da língua
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10-O retrato que Agostinho Neto faz dos jovens nativos segundo o qual " O desamor à causa é principalmente notado em aqueles, com uma certa cultura ou uma boa dose de inteligência geralmente reconhecida", é confirmado por Domingos Van-Dúnem, quando diz : " Os novos, que recebiam preparação nos liceus e esperavam constituir a elite angolana, recusavam qualquer colaboração ao jornal [ O Farolim]. Ver Michel Laban,ob.cit.pp.200-201

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portuguesa, a educação e o ensino, a cristianização. Tal filosofia constitui a ossatura de dois instrumentos: o Estatuto Político, Civil e Criminal dos Indígenas e o Código de Trabalho dos Indígenas.Todos eles arrancam do pressuposto da incapacidade das populações autóctones de Angola, partindo de fundamentos de uma categorização racial. Donde decorre a legitimidade daquilo a que se chamou assimilação uniformizadora.
A ressaca da segunda guerra mundial, os ventos do pan-africanismo, na sua matriz norte-americana, os ecos do nacionalismo nas antigas colónias britânicas e francesas, e a expansão dos partidos comunistas europeus e latino-americanos, são factores de renovação de estratégias da 5ª elite, a geração de 48. Verifica-se a recorrência de um certo tipo de interrogações, que vai sendo tematizado nos textos publicados na imprensa local.
Segundo testemunhos de escritores da geração literária de 48, é inegável a identidade partilhada e sentida por aqueles que a integravam. O poeta António Jacinto teria dito: "Por exemplo, com Agostinho Neto, com Viriato da Cruz, nós sentíamos uma grande proximidade".

Portanto, o fim da II Guerra Mundial coincide com uma diversidade de acontecimentos que ocorrem em Angola. Mas entre os factos dignos de relevo devem ser focados a evolução da política colonial, os progressos da economia colonial e a formação de uma elite de autóctones que ia demonstrando já um elevado nível de consciência reivindicativa e autonomista. O que daria origem àquilo a que se tem designado por resistência dos intelectuais.
O pós-guerra traz para os futuros intelectuais angolanos indicadores de alguma mudança. A este propósito Agostinho Neto, num artigo de jornal, escrevia em 1945: "Já acabou a guerra; pelo menos a militar. Agora, os países que nela estiverem envolvidos; que foram danificados por ela; que sacrificaram seus filhos e seus haveres; exaustos, procuram reedificar, reconstruir, transformar as indústrias bélicas em indústrias de paz; fazer esquecer os horrores da luta; desejam que o mundo a levantar sobre as ruínas deixadas pelos explosivos, sejam menor que o anterior."
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11-J.M. da Silva Cunha, O Sistema Português de Política Indígena (Princípios gerais),Lisboa, Agência Geral do Ultramar,1952
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É no quadro desse ambiente de reconstrução da Europa que os intelectuais angolanos nascidos entre 1922 (Agostinho Neto 1922-1979), Viriato da Cruz (1928-1973) e 1934 (Mário António, 1934-1989), começam a produzir a sua obra literária. Para Mário Pinto de Andrade eles constituiriam aquilo a que chamou a Geração dos anos 20 . Simultaneamente, nesse mesmo período, resgista-se a concentração de uma grande vaga de estudantes oriundos das então colónias portuguesas. Pode dizer-se que para o caso de Angola, a década de 50 estende o foco da explosão intelectual, que vinha ocorrendo em Luanda, Benguela, Huambo e Lubango, para as cidades de Lisboa e Coimbra, os dois pólos da actividade académica universitária em Portugal.
Na extensa entrevista concedida por Mário Pinto de Andrade ( 21 de Agosto 1928 - 26 de Agosto 1990) antes da sua morte, a década de 50 representa na verdade o ponto culminante de uma actividade intelectual nunca vista em gerações anteriores. Prova disso é a criação do Centro de Estudos Africanos em Lisboa, nos anos 50.

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