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MÃE, MATERNO MAR - CAOS, INCERTEZA E RELIGIOSIDADE


Por LUIS KANDJIMBO


O livro de que venho qui falar é o último de uma obra feita de seis livros, sendo três de contos e três romances, nomeadamente: Dizanga dia Muenhu, O Fogo da Fala, A Morte do Velho Kipacaça (conto) e O Signo do Fogo, Maio, Mês de Maria; Mãe, Materno Mar ( romance).
Mas o limiar da leitura tem de remeter-nos para aquilo que perpassa em toda obra e que evidencia a sede de invenção deste autor. É no plano da linguagem que, na primeira fase da sua produção literária, Boaventura Cardoso alcança resultados que o inscrevem por direito próprio na galeria dos autores mais representativos da sua geração, da ficção narrativa e da literatura angolana. Os registos do discurso que atravessam os seus textos, numa deliberada adequação do espaço físico e social à modulação das falas de personagens, comportam além do labor estilístico, uma estrutura de superfície com construções sintácticas que apontam para a existência de sujeitos, personagens, responsáveis por tais acções enunciativas, onde o narrador introduz estratégias discursivas da oralidade. Aí subjazem igualmente estilos de comportamento e uma figuração vocabular e gramatical corroborada pelos contextos que molduram as histórias.
O aparente minimalismo textual, observável nos primeiros livros de contos, esconde paradoxalmente a intenção de conferir mais densidade aos contornos não-verbais e às diversas circunstâncias envolventes, isto é, os chamados não-ditos culturais. No plano sociológico, as estratégias de Boaventura Cardoso, à semelhança de Luandino Vieira, revelam clivagens e variações no funcionamento da língua portuguesa em Angola. A diglossia imprópria é para este autor um importante instrumento. De tal modo que todos os textos parecem levantar a problemática da língua literária, relativizando-a no contexto angolano. Daí que a acção do autor se traduza na exploração das virtualidades do sistema linguístico. Os resultados que alcança no plano formal, deixam de ser suficientes para explicar tais níveis de realização,exigindo-se ainda a convocação de um projecto estético subjacente. Mas semelhante constatação só é possível se se tiver em atenção a situação de discurso em que os textos são criados.
Os seus dois primeiros romances (O Signo do Fogo e Maio, Mês de Maria) apresentam um coerente fio condutor do ponto de vista da articulação das histórias respectivas. Se O Signo do Fogo é um romance que se inscreve no contexto temporal anterior à independência,ou seja, no período colonial, já em Maio, Mês de Maria temos um típico romance pós-colonial ou do pós-independência, em que se incorporam elementos do imaginário religioso perante as crises e incertezas que fracturam o tecido social no centro do qual está a personagem chamada João Segunda. O imaginário religioso e sagrado é vazado através das relações que João Segunda estabelece com um animal doméstico, a cabra Tulumba, em cujo comportamento se podem interpretar os sinais premonitórios e reprobatórios das peripécias do protagonista.
Boaventura Cardoso retoma, neste seu novo romance, o tema do sagrado e da religião de um modo geral. Mãe, Materno Mar, uma narrativa que não é linear na sua estrutura superficial, comporta a história de uma viagem de comboio feita em 15 anos. Tal é a duração do tempo da história.
Dividido em três partes, nomeadamente A Terra, O Fogo e A Água, é um texto que apresenta pelo menos duas histórias secundárias enxertadas na narrativa primária. A velocidade que o narrador imprime dá uma configuração formal dispersiva e caótica a essas histórias. Além de apresentarem características de conto, pela incidência que se faz sobre a obsessão das personagens, no caso de Manecas, e o passado pessoal, no caso do Homem de Fato Preto. Estas duas personagens estão marcadas por obsessões que representam casos clínicos de natureza psicanalítica. Mas o seu estudo implicaria o exercício de um discurso psicanalítico não ortodoxo que teria de incorporar elementos da ciência do Kimbanda, já que as obsessões de Manecas decorrem do facto de ser kianda, menino-das-águas ou menino-feminino.
A alusão que faço à velocidade tem alguma pertinência, pois o comboio e as contigências que afectam a sua função, enquanto meio de transporte, constituem os factores que desencadeam os comportamentos mais relevantes das personagens no mundo possível construído pela história.
Como símbolo de movimento, encurtando o tempo e o espaço, o comboio não desempenha exclusivamente a função de meio de transporte. Pelo contrário, transforma-se em espaço habitacional e simboliza, por outro lado, o espaço da desordem e do caos. É o caos que afecta o movimento e a velocidade do comboio.


TERRA, ÁGUA E FOGO

a água está entre a terra e o fogo
dizia
Ti Lucas

Além do comboio, há ainda o simbolismo da Terra, da Água e do Fogo. São títulos das partes que constituem a ossatura do livro. E com estas denominações simbólicas o autor pretende dar relevância ao segmento da história e às personagens que nelas se destacam. Eis o que, no meu entender, significam: A Terra, a vida e a morte; O Fogo, a vida sexual, o erotismo e a procriação; A Água, o mundo do sagrado e a religiosidade.

Em todos esses capítulos há situações em que determinadas personagens fazem apelos à homenagem aos antepassados. A ordem oculta de que falo reenvia para esse mundo dos antepassados típica das sociedades da tradição.


CAOS E INCERTEZAS

Se o caos é a ausência de ordem, há-de ser manifestação de incertezas. E se isso no plano da psicologia das pessoas se traduzir na crença de que muito de misterioso e fascinante existe na natureza, como acontece com as personagens mais importantes deste romance, dará lugar a uma mentalidade religiosa de que decorrem interrogações e respostas à volta das incertezas que cobrem a existência humana.
Que tipo de sociedade representa o mundo possível construído, quando no aparente caos se esconde uma ordem oculta?
Para a resposta podemos dizer que se trata de uma "sociedade da tradição" em que o passado e a dimensão transcendental comandam a vida dos vivos. No dizer do antropólogo africanista Georges Balandier "nas sociedades da tradição, o mito proclama a ordem, mas a partir do caos, da desordem para a qual contribui ordenando".
A ordem oculta que comporta o passado e a dimensão do sagrado e do transcendental, tem um guardião cujo retrato modesto e humilde passará eventualmente ao lado da atenção dos leitores. Esse guardião do saber esotérico tributário da tradição é Ti Lucas.
Mas o caos parece preceder os acontecimentos de Cacuso, porque entre os passageiros do comboio viajavam, por exemplo, entre outras pessoas, uma família que se deslocava para Ndalatando levando consigo uma noiva cujo casamento ocorreria naquela cidade.Embarcam ainda seis damas de honor, um bolo gigante, aparelhagens, disk jockey, gerador,etc.

ILUSTRAÇÕES DO CAOS

Essa desordem ou caos pode rapidamente ser ilustrada por factos como estes:

a) deixara de chover em Cacuso;

b) surgem quatro igrejas lideradas por três pastores e um profeta;

c) nascem filhos durante a estada de três anos em Cacuso ( de Manecas, das seis das treze moças de óculos escuros, o disk jockey deixa três filhos, o homem de fato preto embarcava com uma mulher e um filho).

d) o comboio que tinha partido de Malange, fica imobilizado durante três anos em Cacuso, por motivos de avaria no seu maquinismo;

e) quando se retoma a viagem, a distância normalmente feita em uma hora foi feita em seis horas;

f) depois de uma permanência de mais de um mês em Cacuso, veio uma vagonete com a brigada de reparação;

g) quando se deu notícia de que a viagem prosseguiria, os que tinham vendido os trajes cerimoniosos e outros objectos, percorreram o mercado, querendo reavê-los, ( os smokings dos que iam ao casamento tinham sido vendidos a sobas de Soqueco); o pai da noiva quis recuperar as doze caixas de vinho Cova da Beira mas tinham desaparecido do mercado;

h) ganham visbilidade as treze raparigas de óculos escuros, as divas que prestam serviços a passageiros: são as prostitutas;

i) enquanto a noiva envelhecia, as seis damas de honor tinham oferecido o honor aos rapazes que faziam parte da caravana, cada uma com o seu filhito; tinham engordado, exibiam as tetas amojadas, duas estavam à espera de novos rebentos;

j) o comboio estava superlotado, quando partiu de Cacuso;

k) o noivo que em Ndalatando esperara pela noiva durante um ano, fartou-se e partiu para Luanda;

l) em Ndalatando a locomotiva levou seis meses a ser reparada e não oito dias como se previa;

m) quando o comboio chegou à estação de Luinha, o rio com o mesmo nome transbordava e inundava os terrenos adjacentes.

CONSEQUÊNCIAS

As consequências são os efeitos do caos. Há uma relação de causalidade entre os factos apontados e os que se seguem. Eles situam-se em vários domínios da vida nesse mundo possível,tais como a vida sexual e a procriação ( o Fogo), a vida e a morte (a Terra), o mundo do sagrado e a religiosidade (a Água). As imobilizações que vão afectando o comboio representam interrupções do curso normal de uma ordem determinada, a ordem temporal representada pelo comboio.Ou seja, é a ordem temporal do mundo ocidental. Mas essa ordem não reune em si elementos capazes de concorrer para a dilucidação de ocorrências perturbadoras.Por isso há uma ordem oculta.
Por conseguinte, sendo a morte de quatro pessoas durante a imobilização do comboio em Cacuso uma situação de caos, o narrador esboça um contexto que permite chegar à conclusão de que o proselitismo das igrejas presentes, longe de serem soluções para as incertezas são apenas mais uma manifestação do caos.


PERSONAGENS

O elenco de personagens é extenso. Mas pode em síntese ser assim constituído:a família da noiva em que se destaca seu pai; Ti Lucas, o ceguinho; Manecas ,(para quem "aquela viagem era só rio correndo as correntes águas. O tempo era constante fluidez. E das margens do rio não vinham notícias nenhumas"(p.207); treze raparigas de óculos escuros;o homem de fato preto; disk Jockey; quatro pastores e um profeta.
Apercebemo-nos da existência destas personagens no momento em que o comboio retoma a viagem, após a paragem de três anos em Cacuso. Alguns deles tinham constituído família ou tinham filhos

TI LUCAS, o ceguinho

Em meu entender a personagem central deste romance é Ti Lucas. E porquê?
É ele que decifra os enigmas com que se vão confrontando as personagens, quer individualmente, quer de modo colectivo. Interpreta o destino das pessoas. E está presente em toda a narrativa. Mas o ceguinho tem uma biografia. Nascido em 1917 era o passageiro mais conhecedor do comboio, da linha férrea por que andava o comboio e do espaço cultural circundante. Aos doze anos tinha sido soldador mecânico. Tinha sido preso em 1961, mas recusou falar dos poderes que tinha para ver fogo debaixo das cinzas.

Se o leitor pode ter sido atraído pelas façanhas do Profeta, certamente não terá ignorado o facto de o próprio Profeta reconhecer os poderes de Ti Lucas, pois ele via muitas águas onde as pessoas só viam terra.
As águas de Ti Lucas, para usar a linguagem do autor, eram mais poderosas que as águas do Profeta.

Por exemplo:
a) Ti Lucas tinha o dom de pressentir os bons e os maus espíritos, o mau carácter, o coração bondoso, os bem-vindos ares, o honesto, o crápula e o vilão, que só de olhar sabia qual passageiro era portador de amuletos ou de algo para fazer mal a alguém(...);
b) Por ser uma figura de consenso, foi ele que popiciou um momento de paz com suas sugestões sobre os funerais; sobre a chuva; sobre as verdadeiras causas da avaria do comboio, ao ter percebido que havia uma gruta onde estavam mikuyius, ndokis, basimbis,mintadis, e mikissis, os espíritos e as mágicas estatuetas.
c) Pressagiou o fim da noiva que teria um casamento estranho.

d) Para o ceguinho, a inundação de Luinha significava que "a água está entre a terra e o fogo.Ela tanto pode significar nascimento como morte. Ela é muito traiçoeira e oportunista porque não tem forma própria.Como não tem casa própria, anda por aí a vaguera, vaguear"(p.222).O que Ti Lucas queria dizer é que aquela "longa viagem tinha também a companhia de certas almas de outro mundo e eram como se fossem passageiros que tinham embarcado em Malange, que seguiam todos os passos de os vivos viandantes"(p.223)

Ti Lucas decifrou assim a ocorrência :

Quem tem frio aproxima-se do fogo
Se cai no fogo, não lhe resta senão voltar
A saltar
O mundo dá cada volta
mas não surpreende a gazela
que não tem medo do fogo

O FOGO, é o título da segunda parte do livro. Corre nela o segmento da história em que a noiva embarca sózinha, deixando os parentes em Ndalatando. Entretanto à noiva, que frequentava os cultos da Igreja do Bom Pastor, viria a suceder um caso estranho. Tinha visto uma cobra com a língua de fora, agitando a cabeça. No instante, uma águia de crista em coroa desceu das alturas e despedaçou a serpente. Quando a águia levanta voo os restos da serpente se trransformam em fogo. O fogo extinguiu-se quando águia desapareceu do céu. Mas o fogo voltara para anunciar o seu triunfo.

Tal como previra o Ti Lucas, a noiva não continuaria a viagem com destino a Luanda, pois ocorreria um estranho casamento. E assim aconteceu, quando numa certa noite os viajantes viram uma luz que era uma chama com formato de falo.Volterara três vezes sobre a fogueira e se extinguiu imediatamente. O narrador diz: "As moças dos óculos escuros tinham excitado o Deus do Fogo, Nzambi ia Tubia.Os falados fogos."(p.196).
Da discussão sobre o enigma da faloforia, destaca-se Ti Lucas que, no seu entender, a estranha luz em forma de falo simbolizava que a noiva, não fazendo já parte do mundo dos vivos, se casara com o Deus do Fogo.. "É um estranho casamento, mas foi o que realmente aconteceu"(p.201).
Se as moças dos óculos escuros são o símbolo da orgia sexual, a impureza, já a noiva pela sua pureza acabou encarnar o desejo do Deus do Fogo


OS QUATRO LÍDERES RELIGIOSOS E AS QUATRO IGREJAS

A primeira manifestação do caos no plano religioso foi a morte de quatro pessoas. E cada um dos mortos pertencia a uma Igreja, nomeadamente à Igreja do Bom Pastor, Igreja de Jesus Cristo Negro, Igreja do Profeta Simon Ntangu António( originária de uma região fronteiriça), Igreja de Jesus Cristo Salvador de Angola.
No decurso da narrativa destaca-se o Profeta Simon Ntangu António.

Quem era o Profeta Simon Ntangu António? A sua biografia é apresentada na terceira parte e nela se salienta o momento em que recebe o bastão da Senhora das Boas Águas.
O Profeta tinha poderes especiais, "fazia os milagres, travar a chuva, desviar o curso das águas de um qualquer rio,aplanar montanhas, curar doenças, reabilitar diminuídos físicos, tornar fecundos ventres estéreis, seduzir mulheres e homens, fazer desaperecer processos judiciais, anular julgamentos, um sem fim de prodígios"(p.255).

Na terceira parte, A ÁGUA, o Profeta Simon Ntangu António começou a evidenciar-se quando com os poderes do seu bastão pôs em marcha o comboio, quase submerso nas águas do rio Luinha. A linha férrea que se encontrava intransitável foi sendo obstruída à medida que o comboio seguia marcha. Decorrido esse episódio revelador, surgiria uma cobra semelhante a uma outra que fora vista quando o Ti Lucas acompanhou o Profeta a um adivinho por ocasião do primeiro desaparecimento do seu bastão.

A FALÊNCIA DO PROFETA

A fama do Profeta chegara a Luanda. Multidões estavam à sua espera para verem suas angústias e aflições resolvidas.
Tinha até vindo uma individualidade estrangeira com o objectivo de contactar o profeta.O contacto pretendido mais parecia traduzir o aprofundamento de um negócio que ambos tinham celebrado através da Internet, meio de comunicação que o Profeta começara a usar no Palácio da Beira Alta onde fora acolhido pelas autoridades locais.
Mas quando o comboio apita na estação do Bungo em Luanda, o Profeta perde o bastão de poderes especiais. E não pode responder às solicitações e expectativas da multidão ávida e que preparava a apoteose ao longo de toda a avenida marginal. Embora o pretexto para a festa da marginal não se tivesse verificado, ela prossegue transformada em profanação e sacrilégio, quando se deseja morte ao Profeta.
Quem não é afectado por falência é Ti Lucas. Ele é detentor de um saber que, fazendo apelo à tradição e ao passado, parece menos vulnerável. É a expressão do sagrado, na medida em que o repositório desse saber lhe merece confiança e respeito.

RENOVAÇÃO TEMÁTICA

A história deste romance introduz na literatura angolana um novo tema ou, dito por outras palavras, arrasta consigo um novo modo de abordar o tema do tempo no imaginário angolano articulado ao sagrado e à religião, englobando a teologia. É uma reflexão realizada no plano da ficção literária que se inscreve perfeitamente no debate flosófico actual sobre a falência do discurso hegemónico do pensamento da modernidade, de um lado. Noutro lado situa-se a dinâmica das chamadas sociedades da tradição em que "o curso das coisas não é essencialmente concebida na perspectiva do irreversível", pelo contrário, "acentua a regularidade dos ciclos naturais e se une a dos ciclos cerimoniais; impõe a consciência de uma permanência profunda sob a superfície das mudanças, de uma continuidade mantida durante as metamorfoses sucessivas".
No contexto das práticas filosóficas africanas pode dizer-se que Boaventura Cardoso engrossa a lista daqueles escritores que dão forma à tendência que introduz o elemento narrativo. Nisto reside a valorização do que Odera Oruka chamou Sage Philosophy, através do personagem Ti Lucas que representa a figura do sábio ( sage).Ti Lucas é sábio do ponto de vista filosófico, na medida em que corresponde de modo consistente às demandas do microcosmo social, respeitantes a aspectos éticos e emprícos fundamentais e relevantes, além de ser capaz de fornecer soluções adequadas a tais aspectos.

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1-Ver Georges Balandier, El Desorden.La Teoria del Caos y las Ciencias Sociales (Elogio de la fecundidad del movimiento), Barcelona, Gedisa, 1989, pp.144-145
2-Cf. Henry Odera Oruka(ed.), Sage Philosophy: Indigenous thinkers and modern debate on African Philosophy. Leiden: Bill, 1990


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