Sentes-te integrado em Portugal? E realizado como actor?
Sim , sinto-me integrado e luto pela integração dos desintegrados em várias frentes. Tenho plena consciência que não existe o hábito de se frequentar os teatro em Portugal. Tenho visitado Associações, convencido jovens a ver os nossos espectáculos, oferecemos convites para grupos. É todo um trabalho que faz parte da profissão, porque sem público não se passa a mensagem e temos consciência que não é um costume. Em Angola por exemplo, tínhamos essa prática, no tempo da revolução, como fonte de informação e de sensibilização. A fogueira do militante e do guerrilheiro, etc. mas isso foi-se perdendo. Agora que estou num lugar privilegiado dentro do teatro português, tenho feito o possível para trazer a malta africana ao teatro. Mas muitas vezes, nem com o bilhete oferecido aparecem A principio as pessoas distanciam-se, não se identificam com os temas. O engraçado é que quando tinha com o Miguel Hurst, o grupo de teatro Pau Preto, com temas sobre os nossos valores, hábitos, usos e costumes, acontecia o mesmo, não vinham e mesmo assim. Mas costumo dizer que é uma luta diária a de trazer a malta para desenvolver o intelecto e não podemos cansar-nos.
Sabes o que se passa a nível do teatro em Angola?
Sei muito pouco, só me informei, praticamente há um mês atrás, a quando da passagem do Dellon (António Oliveira), por Lisboa. Tenho procurado inclusive no Jornal de Angola, na Internet, mas a nível do teatro não há repercussão de nada, não tenho conhecimento. Pode ser por culpa minha, não sei.. Inclusive passaram por cá alguns colegas, actores, ávidos de livros de teatro, das várias técnicas, acho que a questão passa por se fazer mais. É verdade que é difícil num país como o nosso onde as atenções estão viradas para a produção material, mas não podemos esquecer que a formação mental do indivíduo, é fundamental para que ele possa produzir bens materiais. Faço um apelo as autoridades e aos nossos empresários para que pratiquem o mecenato, apoiando os grupos emergentes e outros.
Tens perspectivas de ir para Angola em serviço?
São poucas as perspectivas, fui convidado para a Trienal, mas por causa de compromissos que tinha assumidos cá não pude ir e também porque as condições que me foram oferecidas não eram as melhores. Questões de saúde têm me impedido de estar em Angola, mas tenho contactos com o Miguel Hurst, (fomos colegas em Portugal), ele tem demonstrado interesse para que eu vá. Ultimamente também tenho falado com o João Miguel das Chagas, meu ex camarada da rádio onde trabalhamos, com o Alan Delon, o Maurício, o Mendes, o Minguito, o Lito Graça, com o grupo zigue zague.
Recordas esse tempo?
Sim. Formávamos um grupo que actuava no aniversário dos amigos, depois começamos aparecer nos aniversários da Rádio Nacional, com maior frequência no programa do Simons. Mais tarde, alguns foram para a Rádio-Escola. E nós ficamos ali, a fazer coisas, e tínhamos outras actividades no teatro e no desporto, eu continuei no teatro, era estudante do INE. É espantoso como naquele tempo tínhamos tempo para tudo, o Chagas fazia judô, rádio e teatro, jogava a bola nos leões, eu idem. Entravamos para a rádio e quando de lá saíssemos já era dia, penso que foi dos tempos mais áureos da minha vida, foi essa fase, em que me multiplicava»
Como foi a vinda para Portugal?
Como profissional da área da cultura, e estudante do INE, deixei Luanda com um grupo de colegas. Para cá viemos, atribulados? para sair de lá, e também aqui ao chegar, porque vínhamos para fazer um curso superior de teatro. Quando Adolfo Gutkin passou por Angola, fez essa proposta da criação de um Instituto, que, em principio teria como bases a formação e intercâmbio teatral de Portugal com Angola e os PALOP e postos cá, fomos encaminhados para a Gulbenkian, que não tinha uma escola de teatro propriamente dita, mas um sector apenas para tratar de festivais de teatro e a Gulbenkian entregou-nos ao Adolfo Gutkin, e aí começaram a atribulações?Não tínhamos um local para ter aulas, fomos corridos de vários sítios, até que adquiriram um armazém onde, para estudar tivemos que acabar de fazer a escola, ou melhor, o que passou a chamar-se IFICT (Instituto de Formação, Investigação e Criação teatral.
Aí vocês disseram: Não seja por isso?
Fomos pedreiros, carpinteiros, e pintores. De manhã tínhamos que construir, acabar de fazer a casa, de galochas, ténis, entrar para ali, tirar entulhos etc., para a tarde pudermos ter aulas.
Que odisseia?
Bastante... Inclusive houve colegas que tiveram problemas, a um colega de S.Tomé caiu-lhe um barrote na cabeça, o carpinteiro caiu do tecto?
Não havia um chefe de obras?
Sim? era o senhor que caiu do tecto, veio lá de cima. Um miúdo ficou sem dois dedos, mas esse era empregado do tal senhor. Portanto, nós estudantes tínhamos essa vida, e éramos santomenses, angolanos, moçambicanos e portugueses. E quando terminou o IFICT, ao receber o diploma, descobrimos que afinal a direcção do IFICT também estava a lutar pela oficialização ou homologação do curso junto do Ministério da Educação, que não lhes foi concedida. Depois eles conseguiram anexar o curso aos interesses da CEE e temos esse diplomada acreditado pela CEE.
Não pensaram em regressar a meio de toda essa luta?
Recebemos uma ordem para regressar a Angola, mas não acatamos e andamos pela Embaixada a tentar uma equivalência, alguns junto do Ministério da Educação, conseguiram e outros não. O Dikota foi para o Conservatório, o Fernando Jorge Macedo para Direito Internacional e eu acabei por ir para ciências políticas e antropologia que não acabei, os convites batiam-me sempre à porta, por isso ingressei no conservatório de teatro, pois a minha ida para antropologia era mais no sentido de responder a algumas insinuações que julgavam não haver inteligência nos que cultivavam a arte teatral.
Estás a preparar-te já para a tua próxima actuação?
Voltarei para o teatro nacional com uma peça de José neves que estará em exibição em principio de Janeiro a Março. Até lá, estarei em casa a amadurecer alguns textos, pesquisar aqueles que se coadunam com as minhas vontades. Além das actividades teatrais de palco, há outras actividades que se enquadram na nossa arte. Faço dobragens, publicidade, tenho feito mesmo para Angola, fiz uma para uma marca de vinhos, para as águas de Caramulo. Faço declamação de poesia, sou contador de histórias vamos a muitas escolas narrar contos africanos. Faço-o muitas vezes na Companhia do meu petiz Luís Martinho, que apesar dos seus 14 anos tem já cartas dadas no mercado. Temos estado em bairros carenciados onde somos entrevistados para servir de exemplo a outros jovens imigrantes africanos, sem perspectivas. Damos o nosso testemunho, no sentido de que a aposta no estudo nos permite atingir outros patamares, mesmo na construção civil e limpezas que são profissões dignas.
Como é que um actor se mantém no mercado não tendo um agente?
Em principio passa por não mudar de número de telemóvel no endereço, depois geralmente renovamos o nosso contacto junto das agências. Muitas já o têm e vão ligando, mas a nível de imagem, há que actualizar fotos e também o CV. Os nossos amigos também dão uma ajuda quando vêem o nosso trabalho e passam a palavra. Digamos que quanto mais se aparece, mais trabalho surge. No mercado de trabalho para actores, costumo dizer que não sou exemplo porque estou sempre a trabalhar e de uma maneira geral a maioria não está. É um mercado difícil, mas passa também por sermos nós mesmos a propormo-nos para subsídios. Por exemplo, deixamos que se fechasse uma porta que tinha sido aberta com o grupo de teatro Pau Preto junto do Ministério da cultura. O grupo extinguiu-se e é uma pena.
Há alguma hipotese de reactivar o grupo?
Reactivar o Pau Preto é pouco provavel porque o grupo estava registado em nome do Miguel Hurst. Não é impossível mas como ainda gosto de representar ter que administrar o grupo faz-me um pouco de confusão.
Ninguém quis liderar o grupo após a saída do Miguel Hurst?
Para mim foi impossível, porque estava envolvido em muitas coisas e não poderia dedicar-me só ao Pau Preto, foi uma pena, porque tínhamos esse canal aberto e já há muita malta nossa a fazer teatro, actores e encenadores, como o Rogério de Carvalho e o António Pires.
E o conservadorismo português?
É uma mata que estamos a desbravar. Já foi bem pior, e eles têm que aprender a levar com a gente, porque somos bastantes. Um consagrado actor do teatro português, depois de ver um espectaculo do Pau Preto disse: »Esta mensagem só tem força dita por vocês». Pelo que penso haver espaço para todos.
Caixa:
Percurso artístico de Daniel Martinho
Teatro: O Grande Desafio - por Adolfo Gutkin, Kahito de Uanhenga Xitu- por Rogério de Carvalho, Biombos de Jean Genet - por Carlos Alvilez TEC, «A Lição dos Aloés» de Athol Fuggard - por José Peixoto Malaposta, «António Rapaz de Lisboa» - por Jorge S. Melo, «Fim ou Tende Misericordia de Nós» - por Jorge S. Melo «Germania III» «or Jean Jourdeille» C.C.B, «Sinhá Dendem Mainatu Manu» por Mário Jorge , Teatro Verona, «A Comédia de Enganos» -de Shakespear por Claúdio Hochman, «Um Golpe de Sorte na Crise Não é o Suficiente» - por João Galante e Teresa Prima, «Os Emigrantes » - de Slavomir Mrozek por Celso Cleto ,«Orgia» de Pier Paolo Pasolini por Celso Cleto, «Museu de Pau Preto» - de António Tomás por Miguel Hurst «Cabral» de António Tomás/Zezé Hurst por Miguel Hurst, «Marmequer» de Mia Couto - Teatro Meridional,«Mundau»de Natália Luísa - Teatro Meridional, «Novecento» de Alessandro Baricco por Rui Pedro, «Os Lusíadas a caminho do Oriente»,«Os animais domésticos» de Artistas Unidos.
Televisão: «Sózinho em casa», «Ideias com Histórias», «Cruzamentos» «Olhos D'Água» , «O Teu Olhar», «Os Jikas da Lapa», «Testamento» de Jorge Queiroga
Cinema: «O Gênio da lâmpada»- Animédia, «The Streets Not Return» de Samuel Fuller, «Carga Infernal» de Francisco Silva, «Adeus Pai » de Luís Filipe Rocha «Fintar o Destino» de Fernando Vendrel, «A Caixa » de Manuel de Oliveira «Raquien» de António Tabuqui por Alain Tarner, «António Rapaz de Lisboa» de e por Jorge S. Melo, «Faux Freres» de Jérôme Cornuau por Laetitia Poli e Jean-Luc Estèbe
Opereta: Lisola Disabitata de Joseph Mayden por Luís M.Cintra